Como lidar com os pequenos e terríveis – DN

A convite da jornalista Andreia Pereira do DN aqui ficam algumas reflexões de diferentes especialistas sobre  comportamento dos filhos.

 

pequenos tiranos“O seu filho parece estar constantemente ligado à corrente? Raramente cumpre uma ordem sem ripostar e ainda se regozija quando desafia a autoridade? Se respondeu positivamente às três perguntas anteriores, deverá ler este artigo até ao fim. Embora não haja um manual de instruções universal, apresentamos algumas soluções que o ajudarão a educar os pequenos «ditadores».

No livro O Pequeno Ditador (editora Esfera dos Livros), Javier Urra apresenta uma definição de uma criança «tirana». Para o autor, trata-se de filhos «caprichosos, sem limites, que dão ordens aos pais», além de exercerem chantagem sobre todos os que tentam refrear o seu comportamento. «Querem ser constantemente o centro de atenção», escreveu Urra, acrescentando que estas crianças são, por norma, «desobedientes e desafiadoras».

No parecer de Javier Urra, «as crianças manipuladoras» sabem tirar partido das fraquezas dos pais para impor os seus desejos e vontades. Renato Paiva, pedagogo e director da Clínica da Educação, em Lisboa, esclarece que a perturbação opositiva/desafiadora «é um padrão de comportamento negativista e hostil» que as crianças adoptam na presença das figuras de autoridade.

O director da Clínica da Educação sugere que «em situações de desafio» os progenitores «não devem responder na mesma moeda», já que gritar ou castigar fisicamente só irá aumentar a agressividade da criança. Este especialista defende que os pais devem procurar agir com calma e com tranquilidade, «exercendo a autoridade com firmeza», sem cederem à chantagem emocional dos filhos.

Bruno Gomes, psicólogo no Instituto Português de Pedagogia Infantil, acredita que os pais, por vezes, sofrem de um complexo de culpa, porque temem que a autoridade possa traumatizar a criança. Para o psicólogo, os pais devem ser coerentes e assertivos em todos os seus actos, dado que a aprendizagem das regras e limites são fundamentais no processo educativo.

Será que já nasceu assim?

Muitos pais não compreendem o comportamento das crianças agitadas e rebeldes. Mas María Jesús Álava Reyes, autora do livro O Não também Ajuda a Crescer, que conta com a chancela da editora Esfera dos Livros, diz que estas crianças já nasceram com um temperamento difícil.

O pedagogo Renato Paiva também reitera esta perspectiva, ao defender que a agressividade destas crianças tem um carácter genético. Contudo, nem tudo está perdido, já que o ambiente em que a criança se insere contribui para moldar determinados comportamentos. «Os adultos não se devem deixar levar pelas birras, berros, choro, mau comportamento, nem permitirem que a sua autoridade seja boicotada. A resiliência será sempre o grande aliado da educação», advoga Renato Paiva.

María Jesús Álava Reyes, que acumulou uma larga experiência com crianças, acredita que estes casos não são «irrecuperáveis». Para a psicóloga, estas crianças nasceram com uma «espécie de irritação interna, de insatisfação quase permanente, que lhes dificulta a convivência e a relação com os outros». No entanto, María Jesús Álava Reyes mostra que é possível reverter ou moldar os comportamentos destas crianças. «Teremos de estar permanentemente dispostos para ajudar.»

Permissividade ou autoritarismo?

Para Renato Paiva os adultos não devem, em circunstância alguma, duvidar da própria autoridade. A criança, ao aperceber-se da fragilidade dos pais, vai procurar alargar os limites.

O pedagogo afirma que, actualmente, a maioria dos pais sente dificuldades em encontrar o meio-termo entre a permissividade e a autoridade. Alguns progenitores, com receio de serem autoritários, acabam por descurar a autoridade. «O autoritarismo tem efeitos nocivos sobre a formação da criança, mas a permissividade é ainda pior», fundamenta.

«Os limites bem colocados ajudam a criança a aprender a esperar, a tolerar frustrações e a criar alternativas aceitáveis da expressão da raiva. Com a imposição de regras, a criança irá entender que os outros também têm necessidades e desejos.»

Bruno Gomes afirma que as crianças têm de aprender a ultrapassar a frustração, a zanga e o choro, já que é na infância que se desenvolvem as competências para lidar com estas situações na idade adulta. «Os pais não devem valorizar a birra, nem tão-pouco ceder aos caprichos da criança.»

O psicólogo também considera que os pais não devem tentar «acalmar» as crianças com bens materiais. «As crianças devem aperceber-se de que os benefícios devem ser conquistados e merecidos. Em todo o caso, as recompensas devem ser sobretudo afectivas, em vez de materiais. Um elogio ou uma manifestação de carinho podem ser muito mais compensadoras para a criança. Estas estratégias afectivas acabam por reforçar um comportamento mais positivo da criança.»

Corrigir os comportamentos

Segundo Renato Paiva, em momentos de cansaço e de irritação, os educadores acabam por usar expressões que condenam a própria criança, ao invés do comportamento negativo. «Os pais devem mostrar claramente qual o comportamento errado.»

Enquanto modelos e referências, os pais devem explicar às crianças as regras do jogo, já que a disciplina ajudará a criança a sentir-se mais segura. «Educar com afecto também é muito importante», dado que, por norma, estas crianças agitadas têm baixa auto-estima e são menos tolerantes à frustração.

Em situações públicas, Renato Paiva sugere que os pais conversem previamente com a criança, para evitar chatices e discussões. «Se for a uma superfície comercial ou a casa de familiares ou amigos, fale com a criança e diga-lhe que comportamento espera que ela tenha. Também deve transmitir-lhe confiança e mostrar que a criança é capaz de corresponder às expectativas do adulto. Estas estratégias podem não funcionar à primeira, mas a resiliência fará a diferença a médio/longo prazo.»

De acordo com Renato Paiva, os pais precisam de impor a sua posição e um «não» na hora certa poderá ajudar a definir os limites. Mas também há alturas em que é preciso responder com um «sim». «Ser mestre na arte de negociar é uma característica fundamental para quem lida com crianças.»

Bruno Gomes defende que, em vez de uma postura sobreprotectora e autoritária, os pais devem dar espaço para que a criança manifeste os seus interesses e opiniões. Na perspectiva do psicólogo, uma criança que tenta negociar com os pais mostra sinais de inteligência, já que não se limita a cumprir uma ordem.

Palmada pedagógica: sim ou não?

Há quem defenda que uma palmada na hora certa pode corrigir o comportamento negativo de uma criança. No entanto, alguns autores mostram que o uso do castigo corporal pode gerar mais agressividade por parte da criança. Bruno Gomes diz que um pai que pune com palmadas não tem legitimidade para proibir a criança de bater em terceiros. O psicólogo é apologista de que uma conversa assertiva, em que os progenitores focam concretamente os aspectos que pretendem que a criança melhore, poderá ser uma estratégia mais didáctica do que uns açoites.

Renato Paiva refere que, em vez de palmadas, os pais podem optar por castigar a criança, privando-a de algo ou obrigando-a a executar determinada tarefa «menos apelativa». «O castigo deve cumprir-se até ao fim», sublinha Renato Paiva, acrescentando que a punição deverá ser curta e imediata. «Um castigo aplicado três dias depois do comportamento negativo perde o impacte, porque a criança já não se lembra do sucedido.»

O pedagogo também considera que educar uma criança com berros é uma metodologia contraproducente. «Há pais que acham que ao gritarem estão a ser firmes. Nada mais errado. As crianças percebem que os pais estão descontrolados e, portanto, pouco firmes. Também não adianta colocar limites agora para, depois, quando se está cansado, deixar que a criança faça o que quer.»

Para os pais mais desesperados, este especialista deixa uma mensagem de alento: «Por norma, os comportamentos de uma criança [tirana] tendem a atenuar com a idade.» Renato Paiva afirma que uma criança agitada e rebelde não tem de ser um adulto problemático. No entanto, perante a ausência de regras e limites durante a infância, estes adultos «tendem a ser mais egoístas, autoritários, menos pacientes, um pouco teimosos. Também há uma tendência para a liderança e para imporem as regras.»

 

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